Medicamentos “naturais” para rinite alérgica

“Natural” medicines for allergic rhinitis

Aracy P. S. Balbani1, Jair C. Montovani2

1 – Doutora em Otorrinolaringologia; 2 – Livre Docente da Disciplina de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Disciplina de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Faculdade de Medicina de Botucatu. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP).

Resumo

    Objetivo: Analisar a prescrição leiga de medica-mentos “naturais” para rinite alérgica nas farmácias de manipulação e lojas de produtos naturais nas cidades de Sorocaba e Tatuí (SP).

    Métodos: Foram escolhidos aleatoriamente onze estabelecimentos comerciais (cinco em Sorocaba e seis em Tatuí) em busca de um “remédio natural para rinite alérgica”. Foram anotados os seguintes dados: a) se houve prescrição; b) quem prescreveu; c) tipo de tratamento proposto; d) se houve orientação do balco-nista para procurar médico.

    Resultados: Foram prescritos medicamentos “natu-rais” em sete locais: própolis para instilação nasal, inalação de buchinha do norte (Luffa operculata), cáp-sulas de unha-de-gato (Uncaria tomentosa) e chá de carobinha (Jacarandá pteroides). A posologia e o tempo de tratamento para um mesmo medicamento variaram de acordo com o local. Em apenas dois esta-belecimentos a pesquisadora foi orientada a procurar o médico.

    Conclusões: O emprego crescente das terapias “na-turais” para rinite alérgica no Brasil é estimulado pela prescrição leiga da própolis nasal e fitoterápicos em farmácias e lojas de produtos naturais, conforme cons-tatamos nas cidades de Sorocaba e Tatuí.

    Rev. bras. alerg. imunopatol. 2002; 25(6):204-209 rinite, plantas medicinais, Luffa operculata, unha-de-  -gato.



Abstract

    Objective: Analyzing the non-medical prescription of “natural” medicines for allergic rhinitis in pharma-cies and natural products stores in two cities: Soroca-ba and Tatuí (SP).

    Methods: Eleven drug dispensers were chosen ran-domly (five at Sorocaba and six at Tatuí) resorting for “a natural remedy for allergic rhinitis”. The following data were catalogued: a) if a prescription was made; b) who prescribed; c) kind of the proposed treatment; d) if the personnel referred the patient to a doctor.

    Results: “Natural” remedies were dispensed in se-ven stores: propolis for nasal instillation, inhalation of “buchinha do norte” (Luffa operculata), capsules of cat’s claw (Uncaria tomentosa) and tea of “carobi-nha” (Jacaranda pteroides). Dosage and length of treatment were quite variable for the same drug, ac-cording to the different stores. The researcher was referred to a doctor in only two stores.

    Conclusions: The rising use of “natural” therapies for allergic rhinitis in Brazil is improved by non-medi-cal prescription of nasal propolis and herbal medicines in both pharmacies and natural products stores, as found in Sorocaba and Tatuí.

Rev. bras. alerg. imunopatol. 2002; 25(6):204-209 rhinitis, medicinal plants, Luffa operculata, cat’s claw.


 

Introdução

    A imprensa leiga noticiou que cerca de quatro milhões de brasileiros  utilizam alguma  forma  de terapia alternativa para curar seus males, movi-mentando aproximadamente 500 milhões de dóla-res/ano nesse mercado. Existem 50.000 terapeutas alternativos em atividades no país, com um con-tingente de massagistas três vezes maior do que o de ortopedistas, por exemplo1. Esses dados refle-tem a tendência mundial de aumento da procura da medicina alternativa para o tratamento das mais diversas doenças2,3.

  Pacientes crônicos são uma grande parcela dos usuários de terapias alternativas. Um inquérito re-velou que, dentre 125 pacientes com asma e 175 com rinossinusite, 42% haviam usado ao menos um tratamento alternativo nos últimos doze me-ses. A fitoterapia foi a modalidade preferida (24% dos casos). Cerca de 47% dos pacientes usavam duas ou mais terapias alternativas simultaneamen-te, e 71% faziam-nas junto com o tratamento alo-pático prescrito pelo médico, muitas vezes sem revelar o fato ao profissional4. Um dado preocu-pante é que o uso das terapias alternativas está se intensificando até nas crianças com doenças gra-ves (fibrose cística, artrite reumatóide e asma). Verificou-se que 11% das crianças atendidas em um hospital geral de Montreal submetiam-se a te-rapias alternativas, e a indicação mais comum era para o tratamento de doenças respiratórias. Destas crianças, 40% usavam fitoterapia ou homeopatia simultaneamente a medicamentos alopáticos e de venda livre nas farmácias, expondo-se aos riscos de interação medicamentosa e intoxicações5.

    Vestígios do homem Neanderthal encontrados em cavernas no Iraque mostram que o ser huma-no já usava as plantas medicinais há cerca de 60.000 anos. Atualmente, mais de 50% da popu-lação ocidental são adeptos da fitoterapia6. Um conceito errôneo na comunidade leiga é que os produtos derivados de plantas são “naturalmente seguros”, porém as plantas medicinais podem produzir efeitos adversos pela má qualidade do cultivo, contaminação do solo com metais pesa-dos/agrotóxicos, identificação incorreta da planta no momento da coleta, variabilidade de seus constituintes, dosagem inadequada no uso tera-pêutico ou adulteração com drogas alopáticas. Fo-lhas da mesma planta, quando colhidas em dife-rentes horas do dia, podem apresentar concentra-ções variáveis de seus princípios ativos. Muitas plantas são intrinsecamente tóxicas, como as do “sho-saiko-to”, usado pela “Kampo” (medicina tradicional japonesa) para tratamento da asma. Este preparado é capaz de provocar pneumonite7. A efedra (Ephedra sinica, também conhecida por Ma Huang), empregada na medicina tradicional chinesa como descongestionante, é hepatóxica, e a raiz doce (Acorus calamus) contém óleo de cá-lamo, um carcinógeno7. Virtualmente, todas as plantas medicinais podem provocar reações alér-gicas ou de fotossensibilidade8,9.

    Por outro lado, vários fitoterápicos são benéfi-cos no tratamento da rinite e asma. A “Kampo” oferece várias combinações de ervas medicinais para o tratamento destas doenças, e alguns estu-dos científicos mostram que esses preparados su-primem a atividade das enzimas lipo-oxigenase e ciclo-oxigenase7. Outros compostos fitoterápicos são, comprovadamente, imunomoduladores10,11. A capsaicina, principal componente das plantas da família Capsicum, age nos neurônios sensiti-vos peptidérgicos e tem efeito benéfico na rinite idiopática (antiga vasomotora)12. Muitas drogas alopáticas originam-se de plantas: a efedrina (ob-tida da efedra) e os salicilatos (derivados da casca do salgueiro, Salix alba) são algumas delas3.

    No Brasil já se constatou a ampla prescrição leiga de medicamentos alopáticos para o trata-mento da rinite alérgica13. Presume-se que, frente ao desejo de obter remédios considerados “natu-rais” para tratar a doença (compostos fitoterápi-cos, homeopáticos, vitaminas, etc.), muitos paci-entes recorram às lojas de produtos naturais e far-mácias de manipulação em busca deles. O objeti-vo deste estudo foi verificar a prescrição leiga de medicamentos “naturais” para rinite alérgica nes-ses estabelecimentos nas cidades de Sorocaba e Tatuí (SP).

Métodos

    Foram escolhidos aleatoriamente onze estabe-lecimentos comerciais (seis farmácias de manipu-lação e cinco lojas de produtos naturais), sendo cinco em Sorocaba e seis em Tatuí. No período de 19 à 23/04/2002, uma médica, fazendo-se passar por paciente, procurou os balconistas dos estabelecimentos com a seguinte pergunta: “O(A) Senhor(a) tem algum remédio natural para rinite alérgica?”. As respostas obtidas em cada local fo-ram anotadas em ficha padronizada, registrando-se: a) se ocorrera prescrição leiga; b) quem havia efetuado a prescrição (balconista ou farmacêuti-co); c) tratamento prescrito (natureza, posologia, duração e possíveis efeitos adversos); d) se hou-vera orientação para consultar o médico.

Resultados

a) prescrição leiga. Os atendentes afirmaram dis-por de medicamentos “naturais”para rinite alérgi-ca em oito dos onze estabelecimentos pesquisa-dos (72,7%). Em Tatuí, efetuou-se prescrição em cinco dos seis locais procurados (83%), enquanto em Sorocaba isso ocorreu em apenas dois dos cinco locais (40%). Nenhum atendente questio-nou a suposta paciente quanto a seus sintomas, antecedentes pessoais, uso de medicamentos ou possíveis alergias antes de prescrever.

    Em Tatuí, o atendente de uma farmácia de ma-nipulação disse dispor de remédios homeopáticos, mas estes só poderiam ser prescritos após uma consulta ao farmacêutico. Na consulta, o profis-sional avaliaria “os sintomas e o estilo de vida” da paciente para propor um “tratamento persona-lizado”, porém o farmacêutico não se encontrava no local. Algumas horas depois, sem identificar-  -se, a “paciente” entrou em contato por telefone com o farmacêutico. Ele confirmou que prescre-via medicamentos homeopáticos mediante con-sulta na própria farmácia.

    Na cidade de Sorocaba, a balconista de uma farmácia de manipulação afirmou ter “vários me-dicamentos naturais”, mas não considerou ne-nhum apropriado para a rinite alérgica. Em outros dois locais, os atendentes se recusaram a prescre-ver o tratamento solicitado.

b) quem efetuou a prescrição. Considerando-se os sete locais onde efetivamente ocorreu prescri-ção, ela foi feita por balconistas em seis casos e por farmacêutico em um caso (este em Tatuí).

c) tratamento prescrito. As prescrições foram: extrato de própolis em solução fisiológica em 71% dos locais, buchinha do norte (Luffa oper-culata) em 42%, unha-de-gato (Uncaria tomento-sa) em 28% e carobinha (Jacaranda pteroides) em uma loja de produtos naturais de Sorocaba (14%). O somatório resulta em mais de 100%, pois alguns estabelecimentos propuseram mais de um tratamento. “Compostos antroposóficos” fo-ram mencionados para o tratamento da rinite alér-gica em uma farmácia de manipulação em Tatuí, mas estavam em falta e não puderam ser adquiri-dos.

    O extrato de própolis foi recomendado para instilação nasal. A posologia foi variável: ½ con-ta-gotas em cada narina duas vezes ao dia, quatro vezes ao dia ou “várias vezes ao dia”. A duração do tratamento também apresentou discordância: “até acabar o frasco” ou “durante dois meses”. Dois produtos foram apresentados para venda: um extrato de própolis de fabricação nacional que possuía registro no Ministério da Saúde, cuja bula recomendava “cuidado no uso por indivíduos alérgicos a picadas de abelhas”, e outro extrato de procedência dinamarquesa sem registro no Minis-tério, cuja embalagem advertia que, após aberto, o produto deveria ser consumido em até um mês.

    A buchinha do norte (Luffa operculata) foi co-mercializada em embalagens contendo duas uni-dades do fruto seco. O modo de preparo mencio-nado pelos atendentes foi igual em todos os locais que a indicaram: infusão com ¼ do fruto. Houve unanimidade em afirmar que a planta “era muito forte” e deveria ser usada com cautela somente sob a forma de inalação, sem instilar o preparado no nariz. Quanto à posologia, houve discordância: duas atendentes em Tatuí instruíram a inalação uma vez ao dia, enquanto outra, em Sorocaba, orientou a fazê-la duas vezes ao dia. Em todos os casos, a inalação deveria ser feita até que desapa-recessem os sintomas nasais. Numa loja de pro-dutos naturais de Tatuí, a recomendação foi para tratamento combinado de própolis nasal e inala-ção de buchinha até que passasse a crise de rinite.

    A unha-de-gato (Uncaria tomentosa) foi ven-dida sob a forma de cápsulas, fabricadas por labo-ratório nacional. A posologia mencionada na em-balagem do produto era duas cápsulas três vezes ao dia, mas uma atendente em Tatuí alertou para o possível efeito adverso dessa dosagem (oscila-ções da pressão arterial) e recomendou a redução da dose para uma cápsula três vezes ao dia. uma das atendentes recomendou o uso de uma caixa (que duraria 30 dias, se seguida a dosagem mais baixa). Outro balconista sugeriu que o tratamento durasse dois meses, pois “as plantas têm efeito lendo no organismo”.

    A carobinha (Jacaranda pteroides) foi vendida sob a forma de folhas secas embaladas por fabri-cante nacional. A vendedora orientou o preparo de infusão empregando-se uma colher de chá de folhas de carobinha para cada litro de água fer-vente, tomando-se a infusão várias vezes ao dia até que desaparecessem os sintomas de rinite. Afirmou que a planta era eficaz para o alívio de todos os tipos de alergias e não provocava reação adversa durante seu uso.

d) orientação para procurar o médico. Em ape-nas dois estabelecimentos procurados na cidade de Sorocaba os balconistas se negaram a prescre-ver e orientaram a suposta paciente a consultar um médico. Numa destas farmácias de manipu-lação, a balconista sugeriu que um homeopata fosse consultado.

Discussão

    O resultado da pesquisa realizada nas farmácias de manipulação e lojas de produtos naturais das cidades de Sorocaba e Tatuí (SP) confirma a grande facilidade para aquisição de remédios ti-dos como “naturais” para tratamento da rinite alérgica. Percorrendo-se estabelecimentos, vêem--se também prateleiras repletas de balas de gengi-bre e sprays de própolis recomendados para afec-ções faríngeas; ungüentos e inalantes à base de eucalipto, mentol, anís, bálsamo de tolu e cânfora para alívio do resfriado comum; suplementos vi-tamínicos para “aumentar a resistência às infec-ções” e outros produtos de venda livre. Vários itens são comercializados como complementos alimentares e não possuem registro no Ministério da Saúde (como no caso da própolis importada prescrita para rinite alérgica). Assim, não estão sujeitos ao controle da Agência Nacional de Vigi-lância Sanitária sobre medicamentos, embora se-jam usados dessa forma. Isso coloca em risco a saúde dos consumidores, como já ocorreu com a cartilagem de tubarão e a erva porangaba. Desco-briu-se que ambas eram inócuas, embora houves-se propaganda (enganosa) maciça de seus efeitos benéficos no tratamento da osteoporose e da obe-sidade respectivamente.

    A própolis é formada por material resinoso co-letado pelas abelhas nos brotos e outras partes dos vegetais, modificado pela adição de secreção sali-var e cera. O termo, de origem grega, sugere “de-fesa da cidade das abelhas”. De fato, as abelhas empregam-na no reparo de frestas da colméia, na mumificação de insetos invasores e na desinfec-ção dos locais destinados à postura da abelha-rai-nha. A própolis já era usada pelos sacerdotes egí-pcios na desinfecção de ambientes, e os incas uti-lizavam-na em medicamentos no século XII. A própolis dissolve-se bem em álcool etílico e éter, dada sua composição rica em ácidos graxos e ál-coois. Tem ação antimicrobiana contra germes Gram positivos e Gram negativos. Essa atividade é maior no extrato de própolis (mais concentrado) e menor nas soluções14. Entretanto, seu uso deve ser criterioso, porque há descrição de dermatite de contato à própolis encontrada em cosméticos15, além de anafilaxia pela manipulação da substân-cia numa criança previamente sensibilizada ao veneno de abelha16. Assim, pareceu-nos arriscada a prescrição da própolis pelos balconistas consul-tados sem indagar antes à paciente se ela era alér-gica à picada de abelha. É questionável o uso da própolis no tratamento da rinite alérgica, uma vez que não há embasamento científico para isso. Um estudo sobre o efeito do mel por via oral nos paci-entes com rinite alérgica intermitente mostrou que não há diferenças significativas dos sintomas em relação ao uso de placebo17. Outro aspecto en-contrado em nosso estudo é o da grande variação na posologia e tempo de uso da própolis nasal, evidenciando o desconhecimento dos atendentes das lojas de produtos naturais e farmácias de ma-nipulação quanto ao emprego correto da substân-cia.

    A Luffa operculosa pertence à família das cu-curbitáceas e seu princípio ativo é a isocucurbita-cina B, provavelmente responsável pelo gosto amargo da planta. Sua ação descongestionante so-bre a mucosa nasal é bem conhecida, assim como seu efeito tóxico hemolítico em ratos e peixes18. Seu emprego popular no Brasil é muito antigo, e a planta tem vasta sinonímia: abobrinha do norte, bucha dos caçadores, bucha dos paulistas, buchi-nha, cabacinho, purga de João Pais e purga dos paulistas. No restante da América Latina, é co-nhecida como “esponjilla”. A planta pode ser em-pregada por via oral como laxativo. No tratamen-to da rinossinusite, preconiza-se cortar o fruto em quatro partes iguais e despejar água fervente sobre uma delas, esperando a infusão amornar an-tes da inalação. É descrita na literatura a melhora dos sintomas de rinite alérgica após este trata-mento19. Neste aspecto, a indicação e o preparo da buchinha informados pelos atendentes consul-tados em Sorocaba e Tatuí estavam corretos. En-tretanto, é preciso salientar que não há estudos clínicos sobre o efeito da planta na rinite alérgica, nem definição quanto à freqüência com que as inalações poderiam ser feitas sem provocar irrita-ção da mucosa nasal.

    A unha-de-gato (Uncaria tomentosa) é da fa-mília das rubiáceas, encontrada na Amazônia e muito utilizada pelas comunidades indígenas lo-cais por suas propriedades antiinflamatórias, imu-no-estimulantes e antitumorais20. Não há descri-ção científica de uso no tratamento da rinite alér-gica, embora se possa supor que a planta teria uti-lidade nesses casos. Frente à falta de subsídios na literatura médica, ficam algumas dúvidas: qual a posologia da unha-de-gato no tratamento da rinite alérgica? Por quanto tempo a planta deveria ser usada? Qual o mecanismo que levaria às oscila-ções da pressão arterial, mencionadas por uma balconista consultada? A planta seria contra-indi-cada em pacientes hipertensos

A carobinha (Jacaranda pteroides) pertence a família Bignoniaceae. É usada popularmente para afecções de pele, sífilis e reumatismo, e a indica-ção terapêutica mencionada na literatura científi-ca é similar21. Na colsulta às bases de dados Li-lacs e Medline, não foi encontrada qualquer refe-rência ao uso da carobinha para o tratamento da rinite alérgica. Provavelmente, a indicação feita pela balconista era equivocada.

    Pelo exposto acima, percebe-se que o maior de-safio da fitoterapia é a validação científica do em-prego popular das plantas. São escassas as pes-quisas na área, a mesma planta possui diferentes denominações em cada região, e os efeitos tera-pêuticos e tóxicos de muitas ervas permanecem desconhecidos.

    O argumento de um balconista sobre o “efeito lento das plantas no organismo” subestima de forma perigosa o poder das plantas. Sabe-se, por exemplo, que a intoxicação aguda pela ingestão do chá das flores Datura (conhecidas por saia branca ou trombeta de anjo) produz sintomas em cerca de 10 minutos e requer tratamento em pron-to-socorro22.

    Em 1995, o Ministério da Saúde brasileiro nor-matizou o registro de fitomedicamentos no siste-ma de Vigilância Sanitária. Até então, os produ-tos fitoterápicos estavam isentos de registro no Ministério da Saúde. Pela portaria nº 6/1995 da Vigilância Sanitária, definiu-se fitoterápicos co-mo “todo medicamento elaborado empregando-se exclusivamente matérias-primas vegetais, com fi-nalidade profilática, curativa ou de diagnóstico”. A Portaria também instituiu normas para a rotula-gem e composição de embalagens e bulas23. To-davia, a carobinha e a buchinha comercializadas nos estabelecimentos de Sorocaba e Tatuí não continham bula, em desacordo com a legislação. Por isso, são medidas fundamentais para a prote-ção da saúde pública: o esclarecimento da popula-ção sobre os fitoterápicos, a fiscalização da Vigi-lância Sanitária sobre os produtos disponíveis no comércio e a punição dos fabricantes que não cumprem a legislação.

    Como era de se esperar, prevaleceu a prescri-ção leiga na maioria dos estabelecimentos visita-dos durante a pesquisa. Apenas dois balconistas orientaram a “paciente” a procurar um médico pa-ra tratar a rinite alérgica. Chamou-nos atenção o fato de que, numa farmácia de manipulação em Tatuí, o próprio farmacêutico responsável ofere-cia “consultas” para definir tratamentos homeopá-ticos personalizados. Como se sabe, a homeopatia é especialidade médica no Brasil desde 1980, e farmacêuticos não estão legalmente autorizados a realizar consultas ou prescrever medicamentos homeopáticos à população. Mais uma vez, a ativi-dade de fiscalização da Vigilância Sanitária e do Conselho de Farmácia se faz necessária para coi-bir essa prática ilegal.

    Concluindo, alertamos os médicos para o em-prego crescente das terapias “naturais” para rinite alérgica, facilitado pela prescrição leiga da própo-lis nasal e fitoterápicos em farmácias homeopáti-cas e lojas de produtos naturais, conforme consta-tamos nas cidades de Sorocaba e Tatuí (SP).

Referências bibliográficas

1.       Pinheiro D. Promessa de milagre. Revista Veja 2002; ed. 1749:96-103.

2.       Astin JA, Marie A, Pelletier KR, Hansen E, Has-kell WL. A review of the incorporation of comple-mentary and alternative Medicine by mainstream physicians. Arch Inter Med 1998;158:2303-10.

3.       Frieri M. Herbal therapies: what allergist-immu-nologists should know regarding patient use of complementary and alternative Medicine. Allergy Asthma Proc 2001;22:209-15.

4.       Blanc PD, Trupin L, Earnest G, Katz P, Yelin EH, Eisner M. Alternative therapies among adults with a reported diagnosis of asthma or rhinosinusitis: data from a population-based survey. Chest 2001; 120:1461-7.

5.       Pitetti R, Singh S, Hornyak D, Garcia SE, Herr S. Complementary and alternative Medicine use in children. Pediatr Emerg Care 2001;17:165-9.

6.       Langmead L, Rampton DS. Herbal treatment in gastrointestinal and liver disease – benefits and dangers. Aliment Pharmacol Ther 2001;15:1239-52.

7.      Ziment I, Tashkin DP. Alternative medicine for allergy and asthma. J Allergy Clin Immunol 2000; 106:603-14.

8.       Azevedo EP. Herbal therapy: what every facial plastic surgeon must know. Arch Fac Plas Surg 2001;3:127-32.

9.       Bielory L. Adverse reactions to complementary and alternative medicine: ragweed’s cousin, the coneflower (Echinacea), is “a problem more than a sneeze”. Ann Allergy Asthma Immunol 2002; 88:7-9.

10.   Kao TS, Wang SD, Wang JY, Yu CK, Lei HY. The effect of Chinese herbal medicine xiao-qing-long tang (XQLT) on allergen-induced bronchial inflammation in mite-sensitized mice. Allergy 2000;55:1127-33.

11.   Tanaka A, Ohashi Y, Kakinoki Y, Washio Y, Ya-mada K, Nakai Y,  et al. The herbal medicine Sho-seiryu-to inhibits allergen-induced synthesis of tu-mour necrosis factor alpha by peripheral blood mononuclear cells in patients with perennial aller-gic rhinitis. Acta Otolaryngol (Stockh) 1998; sup-pl 538:118-25.

12.   Marabini S, Ciabatti PG, Polli G, Fusco BM, Gep-petti P. Beneficial effects of intranasal applica-tions of capsaicin in patients with vasomotor rhi-nitis. Eur Arch Otorhinolaryngol 1991;248:191-4.

13.   Balbani APS, Nascimento EV, Sanchez TG, Mel-lo Júnior JF, Butugan O, Duarte JG. Tratamento da rinite alérgica em crianças: prescrição leiga de medicamentos e intoxicações. Pediatria (São Pau-lo) 1997;17:249-256.

14.   Hoffmann FL, Garcia-Cruz CH, Carmello MT, Dutra AL, Vinturim TM. Determinação da ativi-dade antimicrobiana “in vitro” de três produtos farmacêuticos à base de própolis. Hig Aliment 1998;12:57-60.

15.   Puppin Jr. D, Azulay DR, Puppin D, Azulay RD. Dermatite de contato ao própolis. JBM 1989;56: 58-9.

16.   Callejo A, Armentia A, Lombardero M, Asensio T. Própolis, a new bee-related allergen. Allergy 2001;56:579.

17.   Rajan TV, Tennen H, Lindquist RL, Cohen L, Clive J. Effect of ingestion of honey on symptoms of rhinoconjunctivitis. Ann Allergy Asthma Im-munol 2002;88:198-203.

18.   Champney R, Ferguson NM, Ferguson GG. Se-lected pharmacological studies of Luffa opercu-lata. J Pharm Sci 1974;63:942-3.

19.   Vasques CAV, Vasques NV, Arraes LA, Geller M. Revisão farmacognóstica da cabacinha (Luffa operculata Cogn.). F Méd 1986;93:185-7.

20.   Urrunanga-Soria R. La uña de gato: avances de su estudio e importancia en la medicina. SITUA 1994;3:15-21.

21.   Annichino GP, Imamura CRA, Mauad MA, Me-deiros LA, Morita I, Towata EA. Medicina caseira em sete localidades da região de Bauru, SP. Cad Saúde Pública 1986;2:150-66.

22.   Carlini EA. Plantas alucinógenas. Ciênc Cultura 1983;35:444-50.

23.   Bendazzoli WS. Fitomedicamentos – perspectiva de resgate de uma terapia histórica. Mundo Saúde 2000;24:123-6.

Endereço para correspondência

Rua Maneco Pereira, 365
18270-400   -   Tatuí   -   SP
Fax.: 15-251.3852 / 251.6691
E-mail: a_balbani@hotmail.com

 

[Home Page SBAI] [Índice Geral] [Índice do Fascículo]


A Revista Brasileira de Alergia e Imunopatologia é publicação oficial da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia.
Copyright 2001- SBAI -Av. Prof. Ascendino Reis, 455 - Sào Paulo - SP - Brasil - CEP: 04027-000